HOMILIA DOMINICAL
26° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Lc 16, 19-31
Meus irmãos, as leituras de hoje são uma advertência poderosa contra a ilusão da riqueza, da autossuficiência e da indiferença diante do sofrimento do próximo. O profeta Amós denuncia sem rodeios os que vivem em luxo, deitados em camas de marfim, banqueteando-se enquanto o povo sofre, e declara que o fim deles será a ruína e o exílio. É a condenação de uma vida voltada só para o prazer, esquecida de Deus e da justiça. O salmo, em contrapartida, proclama que o Senhor é quem faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, liberta os cativos e ampara os que se encontram prostrados. Ou seja, o caminho de Deus é sempre o oposto do caminho da indiferença: é a misericórdia, é a atenção ao pequeno, é a vida que se coloca a serviço.
Na segunda leitura, São Paulo exorta Timóteo a fugir da ganância, da soberba e das paixões, e a buscar aquilo que é eterno: a justiça, a piedade, a fé, a caridade, a perseverança e a mansidão. É uma verdadeira ordem de combate espiritual: “combate o bom combate da fé”, diz o apóstolo, lembrando que o cristão não pode se contentar com uma fé superficial, mas deve lutar contra si mesmo, contra o mundo e contra o pecado para guardar íntegro o depósito da fé até o fim. Esta palavra vem como contraponto à parábola do evangelho de Lucas, onde Jesus nos apresenta o contraste entre o rico que vivia cercado de banquetes e de luxo e o pobre Lázaro, coberto de feridas, à porta da sua casa. O rico tinha tudo, mas não tinha a compaixão. O pobre nada tinha, mas possuía aquilo que mais importa: estava sob o olhar de Deus.
É impressionante perceber que o pecado do rico não foi a violência nem o roubo, mas a indiferença. Ele não enxergava Lázaro, ele não era capaz de mover o coração para aliviar a miséria daquele homem. Vivia fechado em si mesmo, cego pelo brilho do seu luxo. E quando morre, descobre que nada lhe restou: o banquete se foi, as roupas finas se rasgaram com o tempo, e o que ficou foi o vazio da alma. Já Lázaro, que parecia derrotado na vida, agora é acolhido no seio de Abraão. A grande inversão do Reino de Deus se cumpre: os últimos são elevados, os soberbos são abatidos. Aqui se cumpre também o que Daniel proclama na oração penitencial: não nos salvam nossas obras, mas a misericórdia de Deus, e é a sua justiça que reordena a história.
Esse evangelho é um chamado urgente a nós. Não basta ser religioso, não basta conhecer a Escritura! O próprio rico, no inferno, pede que Abraão envie Lázaro para advertir seus irmãos, e Abraão responde: “Eles têm Moisés e os profetas, que os escutem!” É como dizer: já temos a Palavra de Deus, já temos a voz da Igreja, já temos os sinais da fé. Se não ouvirmos, nem mesmo um morto que ressuscite nos converterá. Essa é uma alusão clara à incredulidade diante de Cristo, que ressuscitou e ainda assim não é ouvido por tantos. O problema não é falta de sinais, mas dureza de coração.
Mas a fim, o que Cristo nos diz nas leituras de hoje? Primeiro, que a fé não se vive isolada da justiça. Quem ama a Deus não pode desprezar o pobre. Segundo, que as riquezas e prazeres desta vida passam, mas o que permanece é a caridade, é a luta do bom combate da fé. Terceiro, que o tempo da conversão é agora, porque depois da morte não há mais retorno. O rico implora uma gota de água, mas o abismo já é intransponível. Quantos, hoje, correm atrás de sucesso, de prazeres e de vaidade, e esquecem de cultivar a única coisa que atravessa a eternidade: o amor.
Por isso, irmãos, combatamos o bom combate, busquemos a santidade não em palavras bonitas, mas em gestos concretos de misericórdia. Não deixemos que ninguém “morra de fome à nossa porta”, não nos acostumemos a ver a miséria e passar adiante. O evangelho não é uma parábola distante, é um retrato da nossa sociedade. Deus quer de nós uma vida sóbria, generosa, voltada ao próximo, que testemunhe a esperança na vida eterna. Acolhamos essa palavra e a traduzamos em vida, porque o Senhor virá em sua glória, e só permanecerá de pé quem guardou a fé e praticou a justiça.
Pe. Emanuel Andrade
