VOCÊ É O BATMAN?
Como sabemos, muitas pessoas, reportagens e debates têm alertado que o uso excessivo do celular vem sendo prejudicial à vida pessoal, mental e social. Isso não é um exagero, muito menos palavras aleatórias de uma pessoa qualquer. Trata-se de um fenômeno observado, estudado e noticiado. O que quase não se diz, porém, é que esse mesmo uso desordenado também tem causado danos profundos à vida espiritual, corroendo o silêncio interior e a capacidade de presença no mundo a fora do virtual.
Uma reportagem da ABC News noticiou um estudo amplo sobre o impacto dos smartphones, afirmando:
“Children who were given smartphones at an earlier age were associated with worse mental health outcomes for every year of smartphone ownership before the age of 13.”
(“Crianças que receberam smartphones em idade precoce apresentaram piores resultados de saúde mental para cada ano de posse de smartphone antes dos 13 anos de idade.”)
Ou seja, quanto mais cedo e mais tempo o celular está presente, piores tendem a ser os efeitos na saúde mental. Se isso já é grave no campo psicológico, é ainda mais devastador quando falamos da interioridade, da atenção e da vida espiritual.
Hoje, muitas pessoas já não conseguem ficar alguns segundos com o celular desligado. Escovam os dentes com o celular na mão. Rezam com o celular por perto. Vão ao cinema, a passeios em família e até a encontros importantes acompanhadas da tela. Há quem leve o celular até ao banheiro, o que além de repugnante, revela uma dependência tão forte que a mente não tolera o silêncio nem por instantes. Fala-se com a família enquanto se navega no celular, criando a ilusão de presença quando, na verdade, há apenas distração.
Tal como muitos jovens levam o celular para a escola, ou até mesmo adultos que levam aos empregos, e desejam as telas a todo momento, então surge o argumento repetido: “Levo para o caso de uma emergência”. Meu amigo, Você é o Batman? Você é a Mulher-Maravilha? Em uma situação grave, ninguém vai ligar para você esperando uma solução heroica. Se houver um incêndio, chamam os bombeiros. Se houver um acidente, chamam o socorro. Se você está a quilômetros de distância, não há nada de significativo que possa fazer. Esse argumento, na maioria das vezes, não é prudência, é uma dependência que você acha que vai ser disfarçada.
Enfim chego ao ponto central que é simples. Não se trata de abandonar o celular ou demonizar a tecnologia. Trata-se de aprender a estar inteiro onde se está, ou melhor, 100% focado no que está fazendo no momento. Quando tudo é mediado por uma tela, a atenção se fragmenta, não há como focar em duas coisas ao mesmo tempo, por mais que você tente. Todos têm 24 horas por dia. Não é irrazoável reservar ao menos uma hora para viver sem notificações, para estar realmente presente no que se faz, seja rezando, conversando ou simplesmente existindo. A atenção que você entrega ao celular é a mesma atenção que você rouba da sua própria alma.
