Você já se perguntou o que existe entre um segundo e outro? Não o tempo visível no relógio, mas aquele sussurro entre os batimentos, aquele vazio que engole o som antes que você perceba que houve silêncio? Há algo ali. Algo que observa.
O mundo que você conhece as ruas, os rostos, os risos repetidos é só a superfície. Como o reflexo na água parada. Mas, se você olhar por tempo demais, com atenção demais, verá que o reflexo se mexe… antes de você.
E então, por um instante, você não sabe mais quem está refletindo quem.
Às vezes, quando a lâmpada pisca sem razão, ou quando um objeto cai sozinho, as pessoas riem, dizem "deve ter sido o vento". Mas no fundo, algo primal dentro delas estremece. Porque elas sabem. Sabem que há uma rachadura invisível entre aqui e o lá. Um limite frágil como o vidro velho, e tão fino quanto a camada de realidade que cobre o que não queremos ver.
Os sons que só você escuta? As palavras que parecem sussurradas ao seu lado quando ninguém está perto? Eles não são falhas da mente. São mensagens códigos de um lugar onde o tempo escorre para cima, e as sombras não obedecem à luz.
Eles estão tentando atravessar.
Você já sonhou com lugares que não lembra ter visto? Casas abandonadas, corredores sem fim, florestas onde o céu pulsa em vermelho escuro? Não são sonhos. São memórias emprestadas. Fragmentos de quando, por acidente ou curiosidade, sua consciência escorregou por entre as frestas.
E cada vez que isso acontece, eles percebem. Eles sentem você.
Porque, neste exato momento, em algum lugar onde a física não vale e os nomes não têm som, algo está parado, de cabeça baixa. Escutando. Esperando. Como se sua existência dependesse do instante em que você vai, finalmente, acreditar.
Não é sobre medo.
É sobre saber que não estamos sozinhos e nunca estivemos.
É sobre o arrepio que sobe quando tudo parece normal demais.
É sobre o reflexo no espelho que demora um pouco mais pra se mover.
Alguns chamam de "o outro lado". Outros preferem não nomear.
Mas há uma certeza entre todas as incertezas:
Você já esteve lá.
E talvez… talvez ainda esteja.